LINGUAGEM E PODER DIALÉTICO - Por Maria da Graça Rios Profa. III/ FaLe/UFMG
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LINGUAGEM E PODER DIALÉTICO
É certo que as palavras, os seus dédalos, a
imensidão esgotante das suas possibilidades,
por fim, a sua traição, têm algo das areias
movediças.
George Bataille (2)
O caráter totalitário da linguagem estabelece jogo dualista e tirano. Eu/não eu, nós/eles, aqui/ali, antes/depois, agora/outrora, são expressões díades. Conduzem o sujeito falante
à fácil apropriação do mundo. Coisificam o universo em que vivemos. Afastam-nos de
sua intimidade natural. A esse fato separador, denominamos dialética do poder.
Analisemos, pois, tal domínio linguístico sobre plantas, animais, terra, céu, mar.
Nossa conduta imperativa, fraudulenta, plena de defeitos, constitui uso da palavra sem
equivalência com o objeto mencionado. Paira, nesse caso, indeterminação fluida entre o
que vemos e o que nos olha.
Daí, mitos, preconceitos, crenças, guerras, derivados de desconhecimento do desejo alheio.
Urge tomá-lo à força, visando realizar próprio desejo. Resulta, daí, inimizade contra natura.
Há dessemelhança entre expressão verbal e realidade das coisas. Cria-se a fatalidade humana,
com nascimento da palavra. O feitiço vira desfavor para o feiticeiro.
Mágico senhor, ávido por dizer tudo, o homo sapiens limita-se ao não dito. Jacques-Marie
Émile Lacan enuncia a contingência subliminar da fala, da escrita, da literatura. Segundo o
eminente psicanalista, nosso inconsciente se estrutura como linguagem, porém do impossível.
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O verbo Dizer, por exemplo, significa incorporação do passado e do futuro.
Perguntamos-lhe sobre origem e destino. Ao questioná-lo, a respeito do indevassável
sentido existencial, reportamo-nos à indisposição espaço-tempo. E damos adeus à
possibilidade de nos centrar no presente. Ao invés de benefício, a curiosidade nos ensina
inquietação e desespero espiritual. Bendito animal irracional, que nem sabe que sabe.
Sim. A linguagem nos traz ilusão de superioridade sobre a natureza. Concede-nos aquele
dom de sapiência comum aos deuses. Vanitas vanitatum et omnia vanitas. Tecido o texto,
ele clama por óculos especiais, ignorados pela onisciência do Monte Olimpo. Eis um
problema de verossimilhança. Sabemos que a palavra nos afasta do mundo dos objetos.
Incita-nos à clivagem humano/animal, homo versus bicho. Caímos na cilada que conduz à
hipotética vantagem de alcançar o limiar do mistério, mediante língua pátria.
Ansiamos pelo êxtase de provar a fruta do papel, negando a doçura de mastigá-la in loco.
Logramos, então, o desgosto de tê-la somente rotulada pela letra. René Magritte redige,
abaixo dele: Ceci n’est pas une pipe. De fato, a imagem pintada não é um cachimbo.
Trata-se de sua representação. Foge à viabilidade de saboreá-lo com a boca. Assim, a
palavra nos prolonga o organismo físico. Facilita-nos tarefas práticas e divisão do
trabalho. Serve de ferramenta pensante. Uma criança se desliga ad aeternum da vida, ao
aceder à esfera da linguagem. Após aprender a falar, lembra-se de esquecer antiga tristeza
de apartar-se do meio ambiente.
Direcionemos o raciocínio, para o ato de nomear elementos naturais. Eis aí nosso sinal de
incompletude. Somos vítimas da razão crítica, ao reconhecê-los apenas pelo simulacro.
Cópia da cópia da beleza supera a original Beleza. Borboleta-palavra pousa sobre o
objeto.
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Encobre-o com sombra escura, véu, poeira. Substitui-se por ele. Prazer sedutor consiste
em eclipsar a flor, dando-lhe o signo FLOR.
Procuramos razão áurea da escrita. Inventamos o que já foi inventado, acrescendo-lhe
promessa de decifração. Doravante, estrela, vento, amor, distância, serão materiais de
jogo taxonômico. Haverão de submeter-se à servidão involuntária das normas gramaticais,
sintáticas, lógicas.
Nomes domesticam a estranheza nativa. Porque o natural resiste ao desvendamento, as
palavras giram a seu redor. Mentem-lhe a fenomênica consistência. Morre, enfim, o verbo,
sufocado pela incapacidade de traduzir o modus vivendi dos seres intraduzíveis.
Permanecem crisálidas abandonadas.
Estrangeiros, perante ideogramas orientais, tornamo-nos insetos de exóticas patas.
Pisamos sobre símbolos incógnitos. Aventuramo-nos a transpor para escrita, a cultura
asiática. Aquém de seu território, ousamos verter palavras ou conceitos inteiros, em vez
de sons específicos. Abstraímos, em prosa e verso, formas abstratas, devidamente
padronizadas. Nossos olhos bola de gude veem se transladam, em arte ocidental, ideias
complexas orientais. Engano despótico, querermos exprimir, na língua portuguesa, a
riqueza de povos que remontam a milhares de anos.
Carocha, para variar. Famoso escritor tecla calhamaço A4. Não o salva. Ao lado, imprime
tantas folhas. Oh, canseira! Relê fortuna semântica. Revisa, muda estilo, conteúdo,
gramática, vocabulário. Enfim, exausto, sai pro quintal. Discute política podre com
vizinho chato. Empoleira-se na jabuticabeira. Chupa laranjas. Entra às treze horas, porque
lhe caem pingos de chuva. Almoça.
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Nessa noite, dorme mal. Vento forte quebrou vidraça. Acorda dia seguinte. Estende
antebraço, manhã seca. Toma café. Escuta jogo de futebol. Leva filhos ao colégio. Volta,
liga televisão. Passa tarde, janta. Súbito, roxo de susto, dispara pé-de-flecha até o banco do
pomar.
— Meu eterno tesouro histórico, aonde anda ainda nas fogosas ondas?
Roda, rola na lama. Emporcalha-se, todavia encontra o livro. Pragueja. Xinga filha da
mãe. Preferível morrer! Torrente tempestuosa do raio dos infernos apagara quinhentas
páginas de escritura, em papel bíblia. Ensopado, joga na lata de lixo, dez anos de pesquisa.
Constatemos. A escrita nos livra da circularidade temporal. Ou seja, entrega-nos à
linearidade trágica de inusitado tempo. Baratas tontas, rateamos do estado da cultura, para
estado civilizatório. Proponhamo-nos esta experiência. Retiremos o nome de algum
vivente terrestre. Também, excluamos a taxonomia que o registra e consagra. Restará
monstrengo marciano, aéreo subversivo amedrontador.
Portanto, convenhamos que a palavra nunca reproduz o vivo ente em questão. Segundo
Rilke, Mesmo o mais próximo é longínquo para o homem.
Uma vez rasurado, o objeto, muda-se em coisa exótica e abstrata. Escrita é ferramenta
artesanal. Observe que a sintaxe articula uma palavra à outra, constituindo peças de
engrenagem enunciativa.
Temos, aí, um instrumento ótico, destinado a perscrutar segredos do mundo. Tal sistema
ocular transforma-se em aberração. Manipula floresta de lentes e espelhos. São cristais,
incapazes de focar, nitidamente, feixes de luz da realidade. Resultam desse processo
descritivo, imagens distorcidas.
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Abjeção linguareira, objeto e palavra jamais coincidem. Letras clamam por óculos
especiais, ainda encobertos pela onisciência do Monte Olimpo. Concluamos este texto,
iniciando ensaio de verossimilhança. Sabemos que a palavra nos inimiza com o fulgor do
real. Impede-nos de ser plena pura natureza.
Amaro é nosso sortilégio literário. Somos doidos doídos visionários do nada. Guimarães
Rosa principia seu Grande Sertão Veredas exatamente com o vocábulo Nonada. Estudiosos
do livro, temos certeza da incerteza de tudo. Um conto ou um poema será sereia, corpo de
peixe, rosto de mulher.
Ulisses quis, era uma vez, abraçá-la, ainda que a falecer, ao ouvi-la cantar. O romance,
criação da mente e do grifo, o que é? Fantasia. Mais (um) vazio, cheio de notas de rodapé
explicativas ou referenciais. Observemos qualquer palavra, escrita no bloco.
Isolemo-la, imóvel na página, separada das outras. Ai! Virou formiga, esquecida pela e da
colônia. Afoga-a um efêmero equívoco. Enlouquecido étimo, escapa do império verbal.
Esgueira-se pelas paredes da página branca. Vemo-la como alteridade não discursiva. Ante
sua estúpida correria, autores leitores lhe buscarão chegada ou saída.
Amanhã, recomeçaremos este ensaio. Hoje, sentemo-nos a pensar na inutilidade dos termos
ditos não ditos, imaginados, conforme estátua de bronze do artista Auguste Rodin.
Por Maria da Graça Rios
Profa. III/ FaLe/UFMG
