A VOZ DO PASTOR - AMOR CONCRETO
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DOM ALBERTO TAVEIRA CORRÊA
Arcebispo Metropolitano de Belém do Pará
Artigo semanal 28 – 17 de julho de 2025
AMOR CONCRETO
A revelação do mandamento do amor foi progressiva, da parte de Jesus.
Valorizou o mandamento do amor ao próximo como a si mesmo, fez com que este
fosse considerado semelhante ao primeiro de todos, o amor a Deus, mostrou
quem é o próximo com a parábola do bom Samaritano, aquele de quem eu me
aproximo, até chegar, já na última Ceia, a abrir totalmente seu coração, dando o
que chamou de seu mandamento. Trata-se de amar-nos uns aos outros, como
ele nos amou. E a totalidade deste amor foi realizada em sua morte e
ressurreição, selada no dom da Eucaristia, com a qual a Igreja se alimenta, no
correr dos séculos, de modo a se tornar, em todos os seus fiéis, capaz de amar
como Jesus amou, com o amor que vem do seio da Santíssima Trindade.
Este leque de manifestações do amor descido da Trindade há de se
manifestar no cotidiano da vida dos fiéis cristãos, sendo o seu testemunho o meio
mais eficaz para atrair os outros, de forma a que todos possam desejar e
experimentar a mesma realidade. É que aprendemos com o Senhor! Aos
pecadores, como a Mulher Adúltera, o perdão sem limites. Publicanos e outras
espécies de pecadores puderam assentar-se à mesa com o Senhor. Os doentes e
todo tipo de marginalizados puderam aproximar-se dele, ser tocados, curados,
reintegrados. Inimigos públicos, segundo a concepção da época, os samaritanos
tiveram acesso ao Salvador, naquela mulher do Poço de Jacó. Com os Apóstolos
e demais discípulos, uma verdadeira escola ambulante, ensinando as lições do
acolhimento e a superação de invejas e ciúmes.
Desejamos hoje ater-nos a uma das experiências feitas por Jesus através
de uma realidade tão humana quanto importante, a amizade e a hospitalidade
(cf. Lc 10,38-42). Tudo indica que a casa de Marta, Maria e Lázaro foi um lugar
privilegiado para o Senhor cultivar este sentimento que nos atrai fortemente.
Certamente Jesus visitou com mais frequência aquela família peculiar do que os
evangelhos relatam. Marta, a solícita dona de casa, parece ter sido a mais velha.
Lázaro deve ter tido os problemas de saúde bem antes de sua morte referida no
Evangelho. Não se sabe muito de Maria, mas alguns arriscam em compará-la
justamente com outra mulher, que também fez gestos de delicadeza com o
Senhor. Entretanto, podemos saber que superou normas constantes da prática
judaica, fazendo-se discípula, aos pés do Senhor, coisa que era reservada aos
homens. De fato, as mulheres aprendiam mais ou menos por tabela, com o que
os homens lhes transmitiam. A partir de Maria de Betânia, tudo mudou ou deve
mudar! Ela escolheu a melhor parte, o discipulado junto ao Senhor, e esta não
lhe pode ser tirada!
Em Betânia há a hospitalidade, representada por Marta, a amizade com
Lázaro, a caridade com o amigo enfermo e morto, o discipulado em Maria, além
da garantida presença do grande círculo formado pelos Apóstolos de Jesus. E
podemos recolher lições preciosas, que nos fazem ser mais acolhedores, num
amor bem realista e concreto, que acolhe, procura, valoriza e envolve os irmãos
e irmãs.
Um primeiro sinal pode ser a atenção a quem passa perto de nós. Um
cumprimento amigo, um bom dia dado de coração, o olhar carinhoso e respeitoso
às pessoas de nossas famílias, levantar os olhos daquele quase onipresente
celular, quando estivermos num coletivo, o conhecimento das situações de
nossos vizinhos, a capacidade de colocar nossos serviços à disposição de quem
precisa, a caridade concreta, sem deixar que qualquer pessoa passe em vão ao
nosso lado.
Voltando às nossas casas, vale lembrar a Primeira Leitura do Domingo que
celebramos (Gn 18,3-10), comentada de forma tão delicada na Carta aos
Hebreus: “Perseverai no amor fraterno. Não descuideis da hospitalidade; pois,
graças a ela, alguns hospedaram anjos, sem o perceber” (Hb 13,1-2). Abraão
recebeu aqueles três peregrinos, oferecendo-lhes o que tinha de melhor, e lhe veio
a promessa de uma descendência. E sabemos que esta cena foi entendida por
artistas como revelação da Trindade que nos visita! De fato, hospitalidade é
virtude a ser praticada, e nós haveremos de cultivá-la continuamente. É hora de
diminuir nossas defesas, nossos alarmes, nossos muros! Sabemos o quanto
nossas Paróquias realizam na preparação de suas festividades, com as
peregrinações pelas casas, e como portas de casas abertas podem levar a portas
de corações que se abrem.
Aliás, esta é uma excelente oportunidade para abrir nossos corações a fim
de encontrar caminhos para visitar pessoas que, por um motivo ou outro, vivem
sozinhas, muitas delas tristes e depressivas. E que tal visitar pessoas que vivem
em casas de idosos, cuja solidão se torna tantas vezes opressiva?
Novo nível, mais provocante, é a convivência social a ser fecundada com
amor ao próximo. Há um desafio a ser enfrentado, a tendência de transformar
qualquer dificuldade entre as pessoas em crime. Muitas são as acusações de
assédio de qualquer tipo a se multiplicarem, assim como a judicialização das
relações entre as pessoas. Vale o antigo princípio de dizia ser melhor um bom
acordo do que uma péssima demanda. Ocorrem-me dois exemplos igualmente
dolorosos. O primeiro é a demanda por heranças de família, cujo resultado, com
desagradável frequência, é muitas vezes a inimizade. Outro vem das áreas rurais,
em que meio metro de cerca pode suscitar uma briga de proporções incríveis!
Se quisermos, é possível ampliar e encontrar os campos da política, do
relacionamento entre as nações, as guerras comerciais de nossos dias, para
descobrir o quanto os cristãos têm o dever se se munir de Evangelho, converterse
a ele e ampliar sua presença e capacidade de ser sal, luz e fermento. E não é
difícil redescobrir que Marta, serviçal e pronta a ser concreta no amor, só poderá
fazer bem a sua parte se seguir Maria, sua irmã, que escolheu a “melhor parte”,
que não lhe será tirada, o seguimento de Jesus!