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O projeto de reforma do quintal impôs a derrubada de uma frondosa mangueira, cuja idade ninguém mais teve condição de calcular, pois a árvore já existia quando o lote foi adquirido. Suas mangas eram grandes, dessas de comer em fatias, e não deixavam fiapos entre os dentes, mas a mangueira ocupava muito espaço, lançava folhas inclusive na piscina de um vizinho e, quando ventava, folhas e alguns galhos eram levados para o telhado da casa colada ao muro do fundo.
Havia, também, o temor de a mangueira favorecer a escalada de algum invasor até um dos quartos da casa, construídos sobre a laje estendida sobre o espaço em declive do terreno.
Ah, se os ladrões soubessem...
Além disso, as últimas safras de manga foram escassas e as frutas também já não eram as mesmas. O tronco da mangueira estava escuro e rachado de cima a baixo e o péssimo estado da planta se confirmava em cada manga.
Restava a bênção da sombra que a árvore proporcionava e a possibilidade de pendurar uma gangorra em seus galhos não comprometidos. Valeria a pena, talvez, buscar um empréstimo para recuperar a mangueira, mas a árvore não resistiu à avaliação de custo-benefício aplicada pelo proprietário da residência.
Ainda assim, o projeto de colher fruta no próprio quintal não parecia perdido. Bem perto do local onde havia a mangueira brotou uma caramboleira, que talvez não ocupasse tanto espaço quanto a falecida mangueira. Seria uma nova Árvore de Natal para o proprietário. No entanto, a caramboleira também cresceu muito, ficou frondosa e logo mostrou que era fértil – aliás, muitíssimo, uma superprodução para consumo inexpressivo. No longo período de safra, soltava-se dos galhos uma grande quantidade de carambolas e havia apenas uma pessoa “disponível” para recolher tudo na grama, a intervalos de 3 horas, e ensacar imediatamente, pois estamos falando de um dos produtos mais cobiçados pelas moscas.
Havia também o ritual de subir uma escada com os sacos nas costas – um de cada vez, é claro – e contornar parte da casa para colocar o produto próximo ao portão, a fim de o carroceiro levar as frutas.
Agora não há mais o pé de carambola e não restou saudade. O que ficou no lugar do entusiasmo inicial com a fruta é uma espécie de missão para o cronista: recomendar a você – caso fique salivando ao se lembrar da exótica carambola – procurar o sacolão mais próximo ou mais distante e pagar, sem reclamar, por alguns gramas da fruta.
Sempre ficará mais em conta do que se tornar escravo de uma caramboleira.
Ivani Cunha
