A Carta de Leão - Dom Walmor Oliveira de Azevedo Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte




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    A Carta de Leão

     

    A expansão das diferentes formas de inteligência artificial impacta a sociedade em seus muitos campos, reconfigurando as relações humanas, modos de pensar e agir, com possibilidades de gerar oportunidades singulares de desenvolvimento e, ao mesmo tempo, graves ameaças ao bem comum.  Um fenômeno complexo que inspirou o Papa Leão XIV a publicar a Carta Encíclica Magnifica Humanitas – sobre a salvaguarda da pessoa humana na era da inteligência artificial.  Diferentes segmentos têm expressado admiração à oportuna Carta Encíclica que convoca a civilização humana à reflexão e, consequentemente, ao agir, partindo da premissa de que o desenvolvimento tecnológico não é neutro, não pode ser inocentemente considerado bom ou ruim, mas devidamente refletido em todos os seus aspectos. Há quem possa se perguntar: inteligência artificial é assunto a ser tratado pela Igreja? Tem relação com a fé? O próprio Papa Leão XIV responde na Carta Encíclica, ao pontuar que a Igreja, na sua tradição, sempre articulou fé e vida, constituindo uma rica Doutrina Social a partir da análise da sociedade à luz da fé.

     

    Ora, analisar no mundo contemporâneo a sociedade, à luz da fé, implica dedicar-se, também, aos impactos reais e possíveis da inteligência artificial na vivência da espiritualidade e, especialmente, no respeito à dignidade humana, pois, para os cristãos, fé e cotidiano se relacionam: não há como amar Deus e desconsiderar os irmãos que sofrem. Essa é uma premissa da Doutrina Social da Igreja, “um património de sabedoria, onde encontramos princípios para pensar, critérios para discernir e julgar, orientações concretas para agir. Ela baseia-se na Sagrada Escritura e na Tradição e, em diálogo com as ciências, ajuda-nos a ler os desafios do presente com lucidez, identificando caminhos adequados para viver, com alegria e a serviço do mundo, um límpido testemunho cristão”, descreve o Papa Leão XIV na sua Carta Encíclica. Justamente com a recém-publicada Carta, o Papa oferece sua contribuição à Doutrina Social da Igreja, partilhando com o mundo critérios objetivos, à luz da fé, para tratar o desenvolvimento da inteligência artificial.

     

    O Papa Leão XIV alerta para as formas de apropriação da inteligência artificial que acentuam cenários de exclusão, com a concentração de riquezas nas mãos de poucos, impondo sacrifícios a quem já padece na extrema pobreza. O Pontífice lembra que, pela primeira vez na história, os estados já não são mais os principais vetores do desenvolvimento tecnológico. “Os principais motores do desenvolvimento são sujeitos privados, frequentemente transnacionais, dotados de recursos e capacidades de intervenção superiores aos de muitos governos. O poder tecnológico assume, destarte, uma identidade inédita, predominantemente ‘privada’ e, portanto, ainda mais difícil de discernir, gerir e orientar para o bem comum”. Assim, uma das perguntas centrais a inspirar reflexões sobre a inteligência artificial seria: a quem essas tecnologias servem e quais são os seus propósitos?

     

    Alguns sinais apontam para um perigoso caminho. Há notícias de adolescentes e jovens que preferem “conversar” com os chamados chatbots, sistemas simuladores de interações, do que com seres humanos. Substituem até mesmo métodos terapêuticos cientificamente comprovados por simulacros desenvolvidos via sistemas automatizados. Outro fenômeno especialmente grave é tratado na Carta Encíclica: o Papa Leão XIV denuncia a “cultura do poder”, o crescimento da indústria bélica, que se tornou um setor-chave na economia de alguns países.  Neste cenário, cresce o emprego da inteligência artificial no desenvolvimento de armas. Chega-se ao absurdo de confiar às máquinas a tarefa de decidir sobre questões morais.  “Fala-se por vezes de ‘agentes morais artificiais’, como se uma máquina pudesse garantir, com maior coerência do que um ser humano, a distinção entre o bem e o mal. Ora, o juízo moral não se reduz a um cálculo: implica consciência, responsabilidade pessoal e reconhecimento do outro como pessoa”, alerta a Carta Encíclica.

     

    Da aparente interação inofensiva entre um adolescente com um chatbot à ameaçadora escalada armamentista impulsionada pela inteligência artificial percebe-se um perigoso contexto de desconsideração da dignidade humana, agredida também por inadequadas aplicações das novas tecnologias. Principalmente aqueles que patrocinam o avanço da técnica são chamados a refletir sobre as desastrosas consequências de um desenvolvimento alimentado pelo egoísmo. Eis o que pede a Carta de Leão: salvaguardar o humano, pois a técnica pode ser importante, mas, criada por Deus, magnífica é a humanidade.

     

    Dom Walmor Oliveira de Azevedo

    Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte